RESENHA - A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini
- 7 de fev. de 2017
- 3 min de leitura

No ano passado, li um artigo (infelizmente, não me lembro em qual site) que listava livros para entender melhor o Oriente Médio. Não eram livros de sociologia ou política, mas, sim, de ficção. Dentre esses vários livros, o primeiro que encontrei foi A cidade do Sol, do escritor afegão Khaled Hosseini. Este ano, faz dez anos da primeira publicação deste livro.
Confesso que fiquei com um pé atrás, pois achei que, por ser um best-seller, tratava-se de uma história pasteurizada para agradar ao grande público e que não traria uma elucidação real sobre o Afeganistão (país onde se passa a história).
Vencida essa resistência, comecei a ler A cidade do Sol, cujo título original é A Thousand Splendid Suns, que foi extraído de um poema persa do século XVII que exalta Cabul, capital do Afeganistão. É uma pena esta tradução da edição brasileira, pois o título original faz muito mais sentido, e o verso do poema do qual ele foi tirado é lembrado por um dos personagens em um dos momentos mais marcantes do livro.
“Não se podem contar as luas que brilham em seus telhados, Nem os mil sóis esplêndidos que se escondem por trás de seus muros.”
Assim que comecei a ler a história de Mariam, filha bastarda (harami) de um rico empresário, que já tinha três esposas, com sua empregada, uma pobre e depressiva aldeã, não consegui mais parar. Junto com Mariam, temos Laila como personagem principal, uma jovem filha de um professor universitário (proibido de lecionar durante o regime soviético) que sonhava com um futuro brilhante, diferente daquele normalmente destinado às mulheres muçulmanas.
Lendo resumos e algumas resenhas, você pode pensar que se trata de um drama no estilo novela mexicana. Contudo, os personagens são muito bem elaborados, e suas relações são profundamente complexas. A primeira e mais marcante característica do mundo muçulmano que aparece no livro é o lugar e o papel da mulher naquela sociedade. Como mulher, é muito difícil não me colocar no lugar das duas personagens principais, vivendo num contexto onde a mulher é completamente desprovida de direitos e liberdade.
"Aprenda isso de uma vez por todas, filha: assim como uma bússula precisa apontar para o norte, assim também o dedo acusador de um homem sempre encontra uma mulher a sua frente. Sempre."
Hosseini consegue passar para o leitor um forte sentimento de claustrofobia, gerado pela condição da mulher, sem nenhuma liberdade, sem ter para onde fugir ou a quem recorrer, e também pelas guerras constantes no país.
Quanto ao motivo que me levou a ler este livro, posso dizer que, apesar de tratar da história do Afeganistão de forma sutil, ele é, sim, muito instrutivo (ainda mais para quem, assim como eu, não tinha grandes conhecimentos). O panorama histórico do Afeganistão que Hosseini traça a partir dos anos 1970 até o início do século XXI deixa o leitor com vontade de se aprofundar, de saber mais. Para mim, foi importante saber sobre as rixas entre as etnias e sobre o envolvimento internacional que não foi nada humanitário. Também achei interessante saber que Cabul já foi uma cidade muito parecida com as nossas, onde havia universidades e várias mulheres estudavam, tinham uma profissão, usavam maquiagem, salto, fumavam e até dirigiam carros (claro que elas eram uma minoria). A imagem que eu tinha de Cabul é de que ela sempre havia sido uma cidade pobre em todos os sentidos, que todas as mulheres sempre usavam burka e que a cultura, a história e a ciência não eram valorizadas...
Outro ponto positivo de A cidade do Sol para mim é a linguagem. Utilizando termos locais, como kolba, harami, jinn, Housseini marca, de forma visível, a presença da cultura afegã. Esses termos, além de serem como peças-chaves na história, carregando tanto significado e tanta força simbólica, revelam uma preocupação com a comunicação intercultural.
Enfim, A cidade do Sol é um livro que recomendo, mas o leitor precisa estar preparado para uma história extremamente triste que, contudo, deixa uma mensagem profunda de esperança e liberdade.
Autor: Khaled Hosseini
Editora: Nova Fronteira
Gêneros: Ficção; Romance




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